Como as mentiras sobre as eleições nos EUA dominaram as campanhas do Partido Republicano

Teorias da conspiração envolvendo urnas, laptops e supostos complôs se tornaram a linha central da sigla, e expõem domínio 'não oficial' de Trump

Porto Velho, RO
- Mais de 370 pessoas — a ampla maioria dos republicanos concorrendo a cargos nas eleições de novembro — questionou e, por vezes, negou os resultados das eleições de 2020, apesar de todas as evidências oficiais da lisura do processo, de acordo com uma investigação do New York Times. 

Esses candidatos representam um sentimento em expansão no Partido Republicano, e que viola um princípio fundamental da democracia: o de que os eleitores decidem eleições e os candidatos aceitam os resultados.

O ceticismo se espalha em disputas em todos os estados e frequentemente é elevado a tema de campanha, cerca de dois anos depois da derrota de Donald Trump para Joe Biden. Centenas desses candidatos são favoritos em suas disputas.

Ao invés de perder força, como muitos americanos esperavam, as mentiras e a desinformação se mostraram resilientes, em meio a um período eleitoral no qual muito está sendo dito pelos candidatos e partidos sobre temas como inflação e aborto. 

Ao todo, foram identificados 240 candidatos que ainda questionam a eleição presidencial, e muitos os fizeram recentemente.
Veja fotos: Apoiadores de Trump fazem vigília em frente à mansão do ex-presidente na Flórida

Muitos mudaram suas visões ao longo do tempo, conforme novas teorias da conspiração surgiram, diante dos pedidos de lealdade de Trump, e após as primárias partidárias. Alguns estão menos exaltados sobre a invasão do Capitólio, e outros seguem promovendo mentiras sobre o processo.

Nenhuma evidência de irregularidades foi encontrada pelo Departamento de Justiça e pelo Departamento de Segurança Interna, ainda no governo Trump, ou por juízes e auditores contratados por alguns dos que diziam haver uma fraude.

Ao todos, foram analisados 550 candidatos republicanos nos 50 estados, através do monitoramento de suas redes sociais, e-mails de campanha, comunicados, discursos, entrevistas e material de divulgação, A análise fez distinções entre aqueles que disseram que a eleição foi roubada, e entre aqueles que criticaram a votação, mas sem alegar fraude, de maneira persistente porém mais razoável.

O preço para entrar no partido

A investigação revelou que 70% dos candidatos republicanos ao Congresso questionaram a eleição de Joe Biden, que recebeu sete milhões de votos e 74 eleitores no Colégio Eleitoral a mais do que Trump. Desses, dois terços são favoritos em suas disputas, de acordo com o Cook Political Report, que analisa as probabilidades de vitória em eleições legislativas e para os governos dos estados.

Entre os candidatos republicanos concorrendo a cargos estaduais que podem exercer um papel crucial em eleições e contagens — governadores, procuradores-gerais e secretários de Estado — mais da metade pôs em xeque a votação de 2020. Esse número é ainda mais alto, 65%, entre os candidatos aos governos estaduais — metade desses nomes aparece na frente nas pesquisas.

Para os candidatos republicanos que preferem falar sobre outros temas que não seja a última eleição presidencial, alguns aprenderam que a base do partido, e seu líder não oficial, Trump, não deixarão que abandonem o assunto. Ele se tornou, em muitos casos, o preço de entrada para uma candidatura na sigla.

No começo de junho, Trump interferiu na primária para o governo de Wisconsin ao apoiar Tim Michels, um magnata do setor de construção, ao invés de Rebecca Kleefisch, ex-vice-governadora e favorita no estado.

Mas esse endosso teve um preço.

Em um debate, em julho, Michels disse que não priorizaria a mudança dos resultados da eleição de 2020 no estado, um processo legalmente inviável mas que ainda é uma obsessão de Trump.

— Preciso priorizar a vitória sobre Tony Evers — disse, se referindo ao atual governador democrata.

A reação de Mar-a-Lago foi dura, exigindo que ele aderisse ao movimento de mudança dos resultados, de acordo com pessoas que tiveram acesso às conversas. Michels mudou o discurso, e disse que estava “muito preocupado com o tema da integridade eleitoral”, e que poderia considerar uma medida do tipo se o Legislativo local a aprovasse.

Nos últimos dias da primária, Michels promoveu uma teoria da conspiração amplificada pelo filme “2000 Mulas”, e prometeu considerar uma medida para retirar de Biden os dez votos do Colégio Eleitoral que ele conquistou no estado em 2020.

Trump apoia cerca de 70% de todos os candidatos identificados como tendo questionado as eleições de 2020, e que são favoritos em suas disputas.

Quem está semeando as dúvidas

Dos mais de 370 candidatos céticos em relação aos resultados de 2020, metade busca a reeleição, e quase todos são favoritos. Um quinto dos candidatos são membros do atual Congresso que, no dia 6 de janeiro de 2021, apresentaram objeções aos resultados do Colégio Eleitoral, algo que tem se mostrado vantajoso.

Nos meses após a invasão do Capitólio, cerca de 80% daqueles que questionaram a eleição e que buscam a reeleição fizeram algum tipo de ação oficial que, na prática, continuou a promover as dúvidas sobre a lisura do processo. 

Isso inclui assinaturas em cartas oficiais apontando para fraudes e interferências na corrida de 2020; patrocinando leis para corrigir o que consideravam ser problemas surgidos durante a eleição; e se juntando a uma nova Convenção Política sobre a Integridade Eleitoral, que liderou muitas dessas iniciativas.

As adesões às teorias sobre fraude ocorreram de formas explícitas e sutis. Menos de um terço abraçou a versão mais extrema, dizendo que a votação foi roubada. Desses, poucos são favoritos, como a governadora do Alabama, Kay Ivey, e os deputados Lance Gooden, do Texas, e Matt Gaetz, da Flórida, assim como candidatos à Câmara, como Mike Collins, Joe Kent e Anna Paulina Luna.

Em um vídeo recente, Collins aparece caminhando diante da câmera com uma arma e diz:

— Você conta os votos legais que foram depositados no estado da Geórgia? Donald Trump venceu neste estado, ponto.

No fim do vídeo, ele atira contra o que parece ser uma máquina de votação, que explode. Biden venceu na Geórgia por mais de 11 mil votos.

A maior parte dos céticos, contudo, não rejeitou totalmente os resultados de 2020. Ao invés disso, levantaram dúvidas ao sugerir, por vezes repetidamente, que havia questões em aberto, e que mais investigações eram necessárias. 

Alguns dizem que não sabem quem legitimamente venceu, ou reconhecem a vitória de Biden, mas não necessariamente que chegou ao poder de forma justa. Outros afirmam que houve irregularidades ou interferências, mas que não mudaram os resultados.

Há candidatos que mudaram de opinião, como Don Bolduc, candidato ao Senado em New Hampshire. Em um debate em agosto, ele disse:

— Assinei uma carta com 120 outros generais e almirantes dizendo que Trump tinha vencido a eleição, e eu sigo acreditando nessa carta — afirmou. — Não estou trocando de lados.

No dia 15 de setembro ele trocou.

— Pesquisei muito sobre isso — disse na Fox News. — Quero ser claro sobre isso, a eleição não foi roubada.

No dia 3 de outubro, assumiu uma posição intermediária.

— Não posso dizer se foi roubada ou não. Não tenho informação suficiente.

Alguns candidatos usaram como argumento o fato de democratas terem apresentado objeções aos resultados do Colégio Eleitoral em 1968, 2000, 2004 e 2016. Nestes casos, apenas um pequeno número de parlamentares apresentou questionamento, sem qualquer efeito prático e depois de que os nomes do partido tinham reconhecido a derrota. Outros se compararam aos democratas que disseram que a Rússia interferiu na eleição de 2016.


Há aqueles que citaram problemas com o software usado nas urnas — por vezes citando teorias da conspiração já afastadas, como aquela que acusava as máquinas da empresa Dominion de alterar os votos. Outros disseram que muitos eleitores usaram as identidades de pessoas falecidas para cometer fraude, apesar de estudos revelarem que tal atividade é incomum.

'Classe dominante'

O filho de Biden, Hunter, também é figura recorrente nas teorias da conspiração.

Recentemente, uma teoria não comprovada de que a imprensa, o Facebook e o FBI se uniram para interferir na eleição de 2020, talvez para mudar o resultado, ganhou força depois que Mark Zuckerberg apareceu em um popular podcast apresentado por Joe Rogan. 

O fundador do Facebook disse que a plataforma restringiu temporariamente uma matéria do New York Post sobre Hunter semanas antes da eleição por causa de um alerta do FBI — Zuckerberg e o FBI disseram que o alerta era ligado a interferência estrangeira, e não sobre o filho de Biden.

Há os candidatos que acreditam que as empresas de tecnologia e imprensa formam uma espécie de “classe dominante” que interferiu na eleição. 

Mesmo antes da entrevista de Zuckerberg a Rogan, políticos republicanos afirmavam ter provas de que matérias sobre Hunter foram censuradas. Eles mencionaram a história do New York Post, sobre um laptop deixado em uma oficina pelo filho do presidente e que teria mensagens potencialmente nocivas a seu pai.

Cerca de 50 candidatos mencionaram ou promoveram o filme “2000 mulas”. Dirigido pelo comentarista conservador Dinesh D’Souza, a produção afirma que um exército de “mulas” encheu as urnas de votos falsos, e diz que essas alegações são apoiadas por informações de telefones celulares, algo que vários grupos provaram ser falso.

Muitos se agarraram a argumentos ligados à tentativa regimental para tentar questionar o resultado do Colégio Eleitoral no dia 6 de janeiro de 2021, um episódio que deu força às alegações de fraude de Trump.

Esses candidatos usaram o pouco ortodoxo argumento de que era inconstitucional para os estados passar por cima do Legislativo estadual ao modificar procedimentos eleitorais durante a pandemia, quando o número de infecções começava a disparar pelo país.

Alguns se agarraram a esse argumento constitucional, mas outros o usaram como um trampolim para acusar os democratas de usarem a pandemia da Covid-19 para roubar a eleição de Trump.

Algo que eles sempre repetem é que estão apenas refletindo as visões de seus eleitores. Pesquisas mostram que a maioria dos republicanos não acredita que Biden venceu a eleição de forma legítima. Mas quando a velha guarda do partido tentou usar essas posições, ela fracassou rapidamente.

Recentemente, Bill Palatucci, membro da Comissão Nacional Republicana de Nova Jersey e um crítico dos esforços de Trump para subverter a eleição, preparou um rascunho de resolução que teria levantado a ideia de que o vice-presidente poderia ter rejeitado os resultados do Colégio Eleitoral (mas sem mencionar Trump).

Ele passou o dia cortejando os membros do partido, e parecia ter ganhado algum apoio. Mas rapidamente tudo desmoronou uma vez depois que três candidatos do Arizona que negam os resultados de 2020 — Blake Masters para o Senado; Kari Lake para o governo; e Mark Finchem para secretário de Estado — venceriam suas primárias.

No final, as mentiras sobre o voto ficaram tão enraizadas que é difícil encontrar candidatos republicanos que aceitem os resultados das urnas sem questionar.

— Qualquer candidato para um cargo público que não puder declarar direta e claramente que os resultados das eleições de 2020 são válidos, e que [o ataque do dia] 6 de janeiro de 2021 foi uma violenta insurreição, deveria ser considerado inapto para a posição — disse Corey Gustafsson, um candidato a uma vaga na Câmara pela Califórnia, ao San Diego Union - Tribune. Ele não é favorito em sua disputa.


Fonte: Agência Brasil
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