Rodrigo Capelo: Para onde vai o dinheiro da seleção brasileira?

Balanço da CBF explica por que gerir futebol é o melhor negócio do país

Porto Velho, RO - Entende-se muito do funcionamento da indústria do futebol nas demonstrações financeiras — esta combinação magnífica de números, palavras e contabilidade que costuma ser publicada no fim de abril. Vejamos a Confederação Brasileira de Futebol. A entidade acaba de aprovar as suas contas referentes a 2021, e esse documento expõe a natureza singular de seu negócio.

É importante dar uma olhada no relatório da auditoria externa. Vai que os dados descritos no balanço não são confiáveis? É trabalho desta empresa checar e relatar. E o caso da CBF é curioso. A confederação sempre se gaba da proximidade com a EY, quando trata de projetos pontuais. Mas o balanço não é auditado por ela, e sim pela Advance Auditores Independentes.

EY, KPMG e Deloitte — três das quatro maiores auditorias do mundo — auditam balanços das federações nacionais de Inglaterra, Espanha, Itália, França e Estados Unidos. Como têm grau elevado de exigência em relação a procedimentos e controles internos, essas empresas conferem maior credibilidade para o que está descrito. A CBF ainda não chegou lá.

Ao entrar nos números propriamente ditos, o fluxo financeiro é a chave para entender o negócio. De onde a grana vem? Da seleção brasileira. Dos R$ 971 milhões que a confederação arrecadou em 2021, 84% estão diretamente ligados à seleção, em patrocínios, direitos de transmissão e bilheterias. O restante se divide entre mesada da Fifa e taxas por registros.

E para onde esse dinheiro vai? Em primeiro lugar, para as pessoas vinculadas à própria CBF. Somente em 2021, foram gastos R$ 102 milhões em funcionários, serviços de terceirizados, intermediários, consultorias, auditorias, assessorias e demais despesas administrativas.

O balanço é propositalmente genérico sobre essas verbas, então precisamos preencher lacunas com investigações recentes dos repórteres Gabriela Moreira, Martín Fernandez e Sérgio Rangel. 

Por exemplo: entre as tais consultorias, está o serviço de Reinaldo Carneiro Bastos. Ele é presidente da federação paulista e recebeu R$ 1,08 milhão da CBF, entre junho de 2020 e julho de 2021, por meio da empresa Ombu Sports Consultoria, da qual é único sócio.

Noutra linha, a confederação descreve a destinação de R$ 166 milhões para o “fomento do futebol nos Estados” e também para “projetos de desenvolvimento, órgãos e departamentos de apoio”. Neste caso, é dinheiro que a entidade coloca nos caixas das federações estaduais.

Essas federações têm seus próprios funcionários, terceirizados, intermediários, consultores, auditores e assessores. 

A palavra usada para descrever o repasse, “fomento do futebol”, faz parecer que os recursos são aplicados em campinhos para que a molecada jogue bola. Muito acima disso, está a estrutura política que manda na entidade e precisa ser sustentada.

Mesmo após custear todas as seleções brasileiras (masculina, feminina e de base), contribuir em gastos básicos de competições nacionais e regionais e distribuir dinheiro para a estrutura política, ainda sobra muito. 

Lucros são frequentes. Hoje, a confederação está sentada sobre poupança de R$ 724 milhões. Dinheiro que está aplicado no mercado financeiro, apesar das condições precárias do futebol. Tem ou não tem o melhor negócio do país, essa tal de CBF?


Fonte: O GLOBO
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